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quinta-feira, 4 de março de 2010

Mãe...só mãe

Mãe coruja, possessiva, super-protetora,
eu ouvia por onde passava.
Mas seguia em frente, feliz e realizada
com minha cria sob as asas.

Um dia a doutora dona Vida interpelou-me:
Mãe, disse ela, filhos não são para a senhora,
Está na hora de me entrega-los!

Atrás dela e junto com ela vinha Freud com
outros doutores e senhores do conhecimento.
Dedos em riste, testas franzidas, aguardavam
que eu acatasse e cumprisse o que ordenavam.

Junto comigo, e também atrás de mim,
quantas mães vi apertando os lábios e
os filhos contra seu regaço, assustadas
e pressionadas pela nova ordem das coisas.

Até então tinha sido diferente: Mães eram
reverenciadas como doadoras e mantenedoras
da vida, não como empecilho para a felicidade.

De repente, sem aviso, fomos arrancadas
de noite, encapuzadas, ainda adormecidas,
do pedestal para o patíbulo em praça publica.
E ninguém nunca nos explicou nada.

Nos diziam que o que tínhamos aprendido
com nossas avós, bisavós e ancestrais, tudo
à respeito da família e da maternidade,
estava errado. Era nocivo, perigoso e
tinha que ser extirpado da vida de todos.

E o que era então ser Mãe? Ninguém dizia.
Não sabiam do que isso se tratava,
desconheciam e não entendiam
o grande mistério da maternidade.

E assim a grande Mãe foi condenada:
em vez de guardiã da vida e da cria,
seu nome ganhou letra minúscula e
ela passou a ser vista e ouvida como
um mal necessário para a continuidade
da famigerada espécie e da sociedade.

E mandaram a mulher para o tanque
e depois lhe deram uma enceradeira,
eletrodomésticos modernos, portáteis e
o resto da história todo mundo conhece..

Mas o fato em si ninguém mudou,
apesar dos tubos de ensaio:
só acontece uma nova vida com
a associação do esperma e do óvulo
de um homem e de uma mulher.

E o útero não é só uma incubadora,
como querem alguns, é mais do que
isso, é um provedor inteligente e
incansável de calor, afeto e alimento.

Podem fazer bebês de proveta,
numa tentativa desesperada de
substituir a Mãe e driblar o
Milagre da criação. Podem.

Mas ali faltará com certeza o
Essencial, a corrente de amor
que flui, quando flui, da mãe
para o feto o tempo inteiro.

Amor que aconchega no desconforto
de começar a existir na existência,
na formação dolorida, com certeza,
dos tecidos , ossos, nervos e membros;
no primeiro movimento dos líquidos
circulando livre pelas novas veias .
E o coração, será que doe ou arde
quando bate pela primeira vez?
Ou assusta com seu barulho?

Ninguém se lembra como foi quando
seu pequeno braço começou a crescer.
Não tínhamos consciência alguém dirá,
e eu posso duvidar, será?
Não deve ser indolor vir a ser!
Como não é indolor nascer e crescer,
e como doe viver e morrer.

Mas o olhar materno, vigilante,
se mantém sobre o vivente,
como uma redoma invisível.
E o pequeno sabe, ele sente.
Mesmo inconsciente, corresponde
à proteção com confiança
e com gratidão, no começo.

Ah como é doce e gratificante
Dois bracinhos rodeando o pescoço
De alguém que cochicha : te amo Mãe..

E passam-se os dias, semanas,
meses , anos, até que um dia,
chega um novo tempo:
ele quer se libertar da dependência,
lhe dizem e ele reafirma irritado.
Concordamos todos, claro! É preciso
crescer, pensar com a própria cabeça !

E a Mãe que deu à Luz ,
(não é assim que se dizia no passado?)
aquele ser crescido em suas entranhas,
deve agora, humildemente e conformada,
retirar-se silente para a arquibancada.

De agora em diante, lhe ordenam:
assista daqui as proezas do seu filho,
mas sem interferir, apenas acompanhe.
E socorra, claro, quando necessário,
afinal, você é a mãe, lhe lembram!

Mas como é mesmo que é isso?
Se com um pedaço de unha se faz
uma magia que afeta uma pessoa,
se com um simples objeto seu, os
advinhos sabem o que aconteceu,
como que um pedaço da sua carne,
sangue, nervos e energia, que de
dentro de si se desprendeu, agora
não tem mais nada a ver consigo?

Só porque Freud e doutos senhores
concluíram que assim devia ser?
E outros, mais loucos ainda,
sentenciaram que era o único
caminho para nossa felicidade,
desvincularmo-nos de nossa origem,
como quem deixa casa, país, trabalho,
marido e muda de identidade.

Se as paredes de cimento guardam
registros e lembranças das dores
e alegrias daqueles que abrigaram,
que marcas terão aquelas do útero
que proveram e aconchegaram
o processo físico, emocional e mental,
sem falar na parte espiritual,
da criação de uma pessoinha?


Saiu o inquilino, a gente pinta e reforma
o ambiente e nem se lembra mais dele?
Não, isso só acontece com imóvel de aluguel!

Mas qualquer coisa feita com amor,
Suor e dor, fará parte intrínseca de nós,
como uma obra, um quadro, uma partitura.
E se essa obra ainda nos olha e chama Mãe!
Vibrando de carinho e necessidade do
nosso afeto, apoio, presença e calor,
desculpe-me a sociedade, a cultura,
a ciência e a psicanálise: não há
neste plano da existência , até agora,
recurso possível e eficiente para
desvincular essa mãe do filho,
por mais que queiram todos.

Filho só existe porque meu sangue,
meu oxigênio, meu organismo,
com todos os meus nutrientes,
hormônios, enzimas e líquidos
lhe abasteceram do necessário
para que sua forma se fizesse,
junto com sua Alma e sua Mente.
Por isso lhe chamo e sinto meu.

Este vínculo não é uma lenda, crença,
é físico, é quântico, é coisa visceral.

Não há separação possível,
nem na Vida, nem na Morte.
É para toda a eternidade.

Gilda Telles

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Corpo em relação

‘O corpo em relação’ e o conto de Franz Kafka ‘A Metamorfose’


O conto “A Metamorfose” de Franz Kafka, publicado em 1915, surge num momento histórico importante vivido na Europa na época, momento que antecede a Primeira Grande Guerra, período da Belle Époque que surge em França no final do século XIX (1871), e que se estendeu pelas duas primeiras décadas do século XX. A popularidade das grandes descobertas tecnológicas e a sua aplicação na vida prática provocaram nas grandes capitais do mundo ocidental uma verdadeira euforia e transformaram por completo a vida dos cidadãos.
Foi um movimento libertário efervescente, de características essencialmente urbanas, que provocou grandes transformações culturais, intelectuais e artísticas que mudaram radicalmente o modo de pensar europeu. A Primeira Guerra Mundial veio, porém, pôr um termo quase absurdo a tamanha euforia. Obras literárias como Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, A sinfonia, O Pássaro de Fogo de Stravinsky, o ensaio de Miguel de Unamuno O Sentimento Trágico da Vida e a Fenomenologia do filósofo alemão Edmund Husserl marcaram a Belle Époque.
Kafka insere-se neste movimento de inquietação provocado por tanta novidade e consegue com este surpreendente conto capturar a estética da sua própria interioridade, transformando-a numa espécie de referência para o próprio corpo que se metamorfoseia em busca do equilíbrio, que - através do insecto - lhe ‘en-ceta’ a transformação do corpo e da alma, expondo o seu estado verdadeiro, existencial, mergulhado numa crise de toda a ordem, retratando a época, bem como a sua desesperança, o seu pessimismo, e as suas angústias geradas pelas respostas que não obtinha quando se questionava sobre valores, ética e futuro. Como muitos intelectuais do seu tempo, ele que se exprimia numa língua que nem sequer era a da maioria dos seus compatriotas, que não tinha a certeza da continuidade da sua pátria nem da sua cultura, desligado do passado e sem rumo certo, teria que se transformar para continuar a viver num espaço de ninguém. Aqui, parece que Kafka e Gregor Samsa se misturam, e se fundem num só corpo numa só relação de surpresa, prazer e dor.
A sua obra nos mostra a solidão e o abandono do Homem abrigado num corpo que se transforma, e se assume numa relação com outro corpo asqueroso, que habita o imaginário do Homem como algo repugnante que nos causa medo e nojo, mas que acontece com a legítima aquiescência do ‘olhar do pai’ como um ‘espelho’ que lhe garante a sua existência, mas que numa atitude desesperada, de grande teor psicológico, tenta matar o filho, atirando-lhe algumas maçãs nas suas costas, reforçando a sua condição rebaixada na escala animal: a condição de insecto que se pode matar com um pequeno objecto.

“A maçã que ninguém se atreveu a retirar das costas de Gregor, permaneceu mergulhada na sua carne como uma recordação palpável,
e o grave ferimento que ele, havia já um mês, apresentava, lembrava ao pai que, apesar da sua triste e terrível transformação, Gregor continuava a ser, não obstante, um membro da família, não devendo ser tratado como um inimigo, pelo contrário, o dever exigia que aquele desgosto fosse esquecido e que se prestasse a Gregor todo o auxílio possível”. (Kafka, pag.91)

Gregor Samsa, caixeiro-viajante por imposição familiar, no seu total e absoluto desconforto frente à sua condição de dominado e explorado, diante do seu conformismo, transforma-se num gigante insecto de grande representatividade, por possuir um forte poder de sobrevivência, vivendo para a reprodução, tão somente, além de ser um dos mais antigos seres a habitar o planeta, muito antes do Homem e que lhe sobreviverá por muito tempo mais no planeta.
Numa passagem do livro (Kafka, pág.51), Gregor, insecto, fechado no seu quarto, excluído, espreita a família pelas fendas da porta e percebe que estão todos em silêncio e pensa que aquela vida tranquila da sua família fora proporcionada por ele, e se sente orgulhoso por ser o responsável pela placidez existente naquela “simpática” casa.
Neste ponto, a relação firma-se como desumana, pois o personagem apresenta-se absolutamente destituído da sua humanidade, e como tal, não consegue exprimir dor, angústia e agonia. Gregor é a expressão mais profunda da ‘alienação’.

“Que aconteceria, agora, se aquela paz, aquela satisfação, aquele bem- estar, acabassem em terror e catástrofe? A fim de dissipar tão sombrios pensamentos, Gregor começou a fazer pequenos exercícios, a rastejar para diante e para trás sobre o soalho”. (Kafka, pág. 51).

O personagem denuncia a alienação do Homem e a sua relação com o absurdo de um mundo cuja história ele não consegue enxergar nem controlar. Entretanto, só a morte de Gregor pode resgatar a sua humanidade, e libertar a todos, inclusive o próprio Gregor.
“O corpo de Gregor, com efeito, estava inteiramente chato e seco. Isso podia ser notado mais facilmente agora que ele não se apoiava nas pernas – e que nada havia para enganar o olhar”. (Kafka, pág. 124)

E uma das maçãs permaneceu no quarto de Gregor, apodrecida, até a sua morte.

“Mesmo a maçã apodrecida, cravada nas suas costas, agora já quase lhe não causava dor, nem sequer a inflamação que se estendera às partes adjacentes, que se achavam cobertas por uma ténue camada de pó, lhe produzia, naquele momento, qualquer mal estar”. (Kafka, pág. 121).

Gregor Samsa se transform num insecto, e permanece na mesma posição de alienado, numa postura de espectador do seu próprio absurdo, do seu infortúnio e da sua incapacidade de mudar o mundo e a história. A filosofia social europeia do tempo da Belle Époque tinha descoberto as obras de juventude de Karl Marx, sobretudo os manuscritos de 1844 e os textos filosóficos onde o comunismo era apresentado como um humanismo, o processo para superar todas as alienações. Mas Kafka desconhecia essa solução que tanto empolgou os jovens pensadores do seu tempo, e influenciou muitas gerações.

Referências bibliográficas

ABREU FREIRE, António (1973) Idéologie et Revolution dans les oeuvres de jeunesse de Marx , Descleée de Brower, Paris/Montréal.

KAFKA, Franz (2002). A Metamorfose, Ed. Livros do Brasil, Lisboa.