Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu, quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo...
Cora Coralina
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
sábado, 28 de agosto de 2010
...e amanhã é domingo
Bom domingo para vocês.
Segunda-feira é um dia mais difícil porque é sempre a tentativa do começo de vida nova.
Façamos cada domingo de noite um réveillon modesto, pois se a meia-noite de domingo não é começo do Ano Novo, é começo de semana nova, o que significa fazer planos e fabricar sonhos.
Meus planos se resumem, para esta semana nova, em arrumar finalmente meus papéis, já que a governanta eu não vou ter mesmo.
Quanto aos sonhos desculpem, guardo-os para mim, como vocês guardam, com o olhar pensativo, de quem tem direito, os próprios.
Clarice Lispector (crônica).
Segunda-feira é um dia mais difícil porque é sempre a tentativa do começo de vida nova.
Façamos cada domingo de noite um réveillon modesto, pois se a meia-noite de domingo não é começo do Ano Novo, é começo de semana nova, o que significa fazer planos e fabricar sonhos.
Meus planos se resumem, para esta semana nova, em arrumar finalmente meus papéis, já que a governanta eu não vou ter mesmo.
Quanto aos sonhos desculpem, guardo-os para mim, como vocês guardam, com o olhar pensativo, de quem tem direito, os próprios.
Clarice Lispector (crônica).
A perfeição
O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível.
Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.
Clarice Lispector - 'A descoberta do mundo' (livro de crônicas, pág. 155)
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível.
Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.
Clarice Lispector - 'A descoberta do mundo' (livro de crônicas, pág. 155)
A partir de hoje...
...quero usar o meu blog para declarar o meu amor pela poesia, literatura, arte e psicanálise.
Quero dividir o meu prazer com as pessoas que, como eu, se deixaram capturar pelas descobertas inestimáveis de livros e autores que nos(e)levam às mais profundas reflexões; que nos acompanham nos momentos de falta e excesso.
Assim sendo, pretendo postar alguns dos textos de alguns escritores, não só os meus favoritos, mas os bons.
Assim começo por apresentar um pouco de Paul Celan e Lispector, a Grande Clarice...
Espero que gostem.
Quero dividir o meu prazer com as pessoas que, como eu, se deixaram capturar pelas descobertas inestimáveis de livros e autores que nos(e)levam às mais profundas reflexões; que nos acompanham nos momentos de falta e excesso.
Assim sendo, pretendo postar alguns dos textos de alguns escritores, não só os meus favoritos, mas os bons.
Assim começo por apresentar um pouco de Paul Celan e Lispector, a Grande Clarice...
Espero que gostem.
Silêncio!
Silêncio! Enterro o espinho no teu coração,
porque a rosa, a rosa
está com as sombras no espelho e sangra!
Já sangrava, quando nós misturámos o Sim e o Não,
quando o bebemos,
porque um copo, que caiu da mesa, tilintou:
repicou numa noite que escureceu durante mais tempo do que nós.
Bebemos com bocas ávidas:
sabia a fel,
no entanto espumava como vinho -
Eu segui o brilho dos teus olhos
a a língua balbuciou doçuras...
(E balbucia, balbucia ainda.)
Silêncio! O espinho penetra-te mais fundo no coração:
está unido com a rosa.
Paul Celan - 'Sete rosas mais tarde' (pág. 29)
porque a rosa, a rosa
está com as sombras no espelho e sangra!
Já sangrava, quando nós misturámos o Sim e o Não,
quando o bebemos,
porque um copo, que caiu da mesa, tilintou:
repicou numa noite que escureceu durante mais tempo do que nós.
Bebemos com bocas ávidas:
sabia a fel,
no entanto espumava como vinho -
Eu segui o brilho dos teus olhos
a a língua balbuciou doçuras...
(E balbucia, balbucia ainda.)
Silêncio! O espinho penetra-te mais fundo no coração:
está unido com a rosa.
Paul Celan - 'Sete rosas mais tarde' (pág. 29)
Celan mais uma vez e sempre Celan
Durschs schüttelsieb schick idch den traum,
du fängst ihn auf, in Seelentellern
und setzt ihn der Speise zu,
die wir Ineinandergeknieten
verschmähen
müssen.
(27.12.1968)
Mando o sonho através do crivo vibrante,
tu apanhá-lo em pratos
da alma
e juntá-lo à refeição
que nós, os que ajoelham um dentro do outro,
temos de
desprezar.
'A morte é uma flor' Celan, pág.96/97.
(Tradução de João Barrento)
du fängst ihn auf, in Seelentellern
und setzt ihn der Speise zu,
die wir Ineinandergeknieten
verschmähen
müssen.
(27.12.1968)
Mando o sonho através do crivo vibrante,
tu apanhá-lo em pratos
da alma
e juntá-lo à refeição
que nós, os que ajoelham um dentro do outro,
temos de
desprezar.
'A morte é uma flor' Celan, pág.96/97.
(Tradução de João Barrento)
domingo, 25 de julho de 2010
Diálogo indígena
Três índios bolivianos, à beira do lago Titicaca, lá junto do céu, ao pé do pico de Illampu, a 6.550 metros de altura, encostados nas pedras, olhavam o infinito, e fumavam seus longos cigarros de folhas de coca.
Depois de horas de total silêncio, um deles falou:
- Vou comprar a General Motors, a Volkswagem, a Ford, a Fiat, a Mercedes Benz, a Toyota, e ser o maior industrial do ramo de automóveis do mundo...
Silêncio quase total, só quebrado pelo barulho do vento nas folhas das árvores.
O segundo índio, depois de longo tempo falou:
- Pois eu vou comprar o Banco Central dos Estados Unidos, o Banco Central da Inglaterra, o Banco Central da Alemanha, o Banco Central do Brasil, o Banco Central da Bolívia, todos os grandes bancos, e vou ser o maior banqueiro do mundo.
Então, depois de algum tempo o terceiro, que nada tinha falado, falou:
- Não vendo!
E os três continuaram calados...
Depois de horas de total silêncio, um deles falou:
- Vou comprar a General Motors, a Volkswagem, a Ford, a Fiat, a Mercedes Benz, a Toyota, e ser o maior industrial do ramo de automóveis do mundo...
Silêncio quase total, só quebrado pelo barulho do vento nas folhas das árvores.
O segundo índio, depois de longo tempo falou:
- Pois eu vou comprar o Banco Central dos Estados Unidos, o Banco Central da Inglaterra, o Banco Central da Alemanha, o Banco Central do Brasil, o Banco Central da Bolívia, todos os grandes bancos, e vou ser o maior banqueiro do mundo.
Então, depois de algum tempo o terceiro, que nada tinha falado, falou:
- Não vendo!
E os três continuaram calados...
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