Autor: Lya Luft
Veja - 12/09/2011
Há quem diga que sou otimista demais. Há quem diga que sou pessimista. Talvez eu apenas tente ser uma observadora habitante deste planeta, deste país. Uma colunista com temas repetidos, ah, sim, os que me impactam mais, os que me preocupam mais, às vezes os que me encantam particularmente. Uma das grandes preocupações de qualquer ser pensante por aqui é a educação. Fala-se muito, grita-se, escreve-se, haja teorias e reclamações. Ação? Muito pouca, que eu perceba. Os males foram-se acumulando de tal jeito que é difícil reorganizar o caos.
Há coisa de trinta anos, eu ainda professora universitária, recebíamos as primeiras levas de alunos saídos de escolas enfraquecidas pelas providências negativas: tiraram um ano de estudo da meninada, tiraram latim, tiraram francês, foram tirando a seriedade, o trabalho: era a moda do "aprender brincando". Nada de esforço, punição nem pensar, portanto recompensas perderam o sentido. Contaram-me recentemente que em muitas escolas não se deve mais falar em "reprovação, reprovado", pois isso pode traumatizar o aluno, marcá-lo desfavoravelmente. Então, por que estudar, por que lutar, por que tentar?
De todos os modos facilitamos a vida dos estudantes, deixando-os cada vez mais despreparados para a vida e o mercado de trabalho. Empresas reclamam da dificuldade de encontrar mão de obra qualificada, médicos e advogados quase não sabem escrever, alunos de universidade têm problemas para articular o pensamento, para argumentar, para escrever o que pensam. São, de certa forma, analfabetos. Aliás, o analfabetismo devasta este país. Não é alfabetizado quem sabe assinar o nome, mas quem o sabe assinar embaixo de um texto que leu e entendeu. Portanto, a porcentagem de alfabetizados é incrivelmente baixa.
Agora sai na imprensa um relatório alarmante. Metade das crianças brasileiras na terceira série do elementar não sabe ler nem escrever. Não entende para o que serve a pontuação num texto. Não sabe ler horas e minutos num relógio, não sabe que centímetro é uma medida de comprimento. Quase metade dos mais adiantados escreve mal, lê mal, quase 60% têm dificuldades graves com números. Grande contingente de jovens chega às universidades sem saber redigir um texto simples, pois não sabem pensar, muito menos expressar-se por escrito. Parafraseando um especialista, estamos produzindo estudantes analfabetos.
Naturalmente, a boa ou razoável escolarização é muito maior em escolas particulares: professores menos mal pagos, instalações melhores, algum livro na biblioteca, crianças mais bem alimentadas e saudáveis – pois o Estado não cumpre seu papel de garantir a todo cidadão (especialmente a criança) a necessária condição de saúde, moradia e alimentação.
Faxinar a miséria, louvável desejo da nossa presidente, é essencial para a nossa dignidade. Faxinar a ignorância – que é outra forma de miséria – exigiria que nos orçamentes da União e dos estados a educação, como a saúde, tivesse uma posição privilegiada. Não há dinheiro, dizem. Mas políticos aumentam seus salários de maneira vergonhosa, a coisa pública gasta nem se sabe direito onde, enquanto preparamos gerações de ignorantes, criados sem limite, nada lhes é exigido, devem aprender brincando. Não lhes impuseram a mais elementar disciplina, como se não soubéssemos que escola, família, a vida sobretudo, se constroem em parte de erro e acerto, e esforço. Mas, se não podemos reprovar os alunos, se não temos mesas e cadeiras confortáveis e teto sólido sobre nossa cabeça nas salas de aula, como exigir aplicação, esforço, disciplina e limites, para o natural crescimento de cada um?
Cansei de falas grandiloquentes sobre educação, enquanto não se faz quase nada. Falar já gastou, já cansou, já desiludiu, já perdeu a graça. Precisamos de atos e fatos, orçamentos em que educação e saúde (para poder ir à escola, prestar atenção, estudar, render e crescer) tenham um peso considerável: fora disso, não haverá solução. A educação brasileira continuará, como agora, escandalosamente reprovada.
domingo, 18 de setembro de 2011
domingo, 17 de abril de 2011
Na vertigem do dia
Uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém: fundo sem fundo
Uma parte de mim é multidão, outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim pesa, pondera, outra parte delira
Uma parte de mim almoça e janta, outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente, outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem, outra parte, linguagem
Traduzir uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte - será arte?
Ferreira Gullar
Uma parte de mim é multidão, outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim pesa, pondera, outra parte delira
Uma parte de mim almoça e janta, outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente, outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem, outra parte, linguagem
Traduzir uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte - será arte?
Ferreira Gullar
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Voltando...
Depois de alguns meses distante do meu blog, envolvida que estou com outros projectos, nomeadamente, o projecto da tese, quero voltar a escrever, a ler poesia, a assistir os filmes que gosto, a frequentar livrarias, a degustar um café com amigos, a trocar ideias com os meus filhos...a viajar.
Cordel
Eu comparo nossa vida
Com aquela dobra do "esse"
É uma ponta que sobe
E outra ponta que desce
E a volta que tem no meio
Nem todo mundo conhece.
Severino Pinto - Folheto de Cordel
Com aquela dobra do "esse"
É uma ponta que sobe
E outra ponta que desce
E a volta que tem no meio
Nem todo mundo conhece.
Severino Pinto - Folheto de Cordel
O operário em construção
"Era ele que erguia casa
Onde antes só havia chão
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião".
Vinicius de Morais
Onde antes só havia chão
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião".
Vinicius de Morais
Onde...
"O essencial é saber ver
Sem estar a pensar
Saber ver quando se vê
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa".
Fernando Pessoa
Sem estar a pensar
Saber ver quando se vê
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa".
Fernando Pessoa
O teu olhar
Quando fito o teu olhar
Duma tristeza fatal
Dum tão íntimo sonhar
Penso logo no luar
Bendito de Portugal!
O mesmo tom de tristeza
O mesmo vago sonhar
Que me traz a alma presa
Às festas da Natureza
E à doce luz desse olhar!
Se algum dia, por meu mal
A doce luz me faltar
Desse teu olhar ideal
Não se esqueça Portugal
De dizer ao seu luar
Que à noite, me vá depor
Na campa em que eu dormitar
Essa tristeza, essa dor
Essa amargura, esse amor
Que eu lia no teu olhar!
Florbela Espanca
Duma tristeza fatal
Dum tão íntimo sonhar
Penso logo no luar
Bendito de Portugal!
O mesmo tom de tristeza
O mesmo vago sonhar
Que me traz a alma presa
Às festas da Natureza
E à doce luz desse olhar!
Se algum dia, por meu mal
A doce luz me faltar
Desse teu olhar ideal
Não se esqueça Portugal
De dizer ao seu luar
Que à noite, me vá depor
Na campa em que eu dormitar
Essa tristeza, essa dor
Essa amargura, esse amor
Que eu lia no teu olhar!
Florbela Espanca
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